quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
(des)construção social
Eu to aqui, escutando Fake Plastic Trees, com oitocentas apostilas espalhadas sobre a mesa. Observando as outras tantas pessoas nas outras mesas, com suas apostilas espalhadas.
Fico pensando que em cada uma dessas apostilas, de cada uma dessas pessoas, há uma construção individual. O emaranhado de mesas, cada qual com sua construção individual, resultaria numa construção coletiva.
Mas cada uma dessas pessoas, motivadas seja lá por quais forem seus motivos individuais, são fruto de uma construção coletiva social anterior a essa que nós somos. E nós, com nossas apostilas e nossos perfis nos sites de relacionamentos influenciaremos numa construção coletiva posterior a nós mesmos.
Eu não sei aonde quero chegar com essa conversa, mas, nesse momento, eu não consigo enxergar de que forma as minhas reações de Grignard, ou o Skinner da moça aqui do lado, ou a bioquímica celular do cara ali da frente, separadamente, podem mudar toda uma concepção de valores futuros.
A nossa sociedade nos dividiu em pequenos departamentos, nós, em cada uma dessas mesas, somos pequenos grupos funcionais de uma coisa maior, o problema é que esses pequenos grupos funcionais se afastaram uns dos outros de uma maneira tão efetiva, tão eficaz, que pensar numa mudança coletiva advinda de pequenas mudanças individuais é tão....tão pouco palpável, nesses dias em que eu deixei de ver o noticiário pra abrir um livro de química orgânica....
Vanessa Daiany.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Percepções.
A pedidos de Juliana Paulino. (Minha adorada Juba)
A conversa começou numa aula de física experimental, quando tentávamos provar, empiricamente, a Lei de Lorentz. Não sei bem como surgiu, mas o assunto foi parar numa marca importada de um esmalte que custava não sei quantos reais. Eu, do alto de todos os meus conceitos previamente estabelecidos, claro, julguei como pura futilidade. E a Juba disse uma coisa que me deixou pensativa: que não era a coisa pela coisa, sabe? Não era pelo preço que a coisa custava ou pela utilidade que lhe era conferida, era a coisa pela sensação que ela provocava. Que, mesmo parecendo fúteis, a sensação provocada por determinadas coisas, em determinadas situações, era totalmente impagável.
Fui pra casa meio absorta. E só bem depois pude perceber o que Juba queria dizer.
Quando, em pleno sábado de sol, a única Skol sobrevivente no freezer estava completamente pedrada, eu e painho passamos uns bons minutos tentando descongelá-la, como quem tenta salvar um ente querido prestes a morrer de hipotermia... No fim das contas a tal da cerveja não prestou pra nada. Mas era justamente dessa sensação que a Ju falava. Da percepção que isso tinha causado.
Depois eu parei pra lembrar uma série de outras coisas, como minha edição de 1967 do “Cem anos de solidão” que eu não troco por dinheiro nenhum. Ou meu posterzinho, de uns 10 cm, de “ A viagem fantástica”, 1966, que eu guardo com tanto carinho. O que essas coisas têm de tão diferentes de um esmalte importado? Elas estão lá, guardadas na minha estante, como pequenos troféus intocáveis e significam muito pra mim. Mas para minha mãe são só um monte de papéis costurados numa capa azul. Porque é tudo uma questão de percepção.
Hoje, há pouco, entrei num ônibus ofegante de tanto chorar. Uma velhinha, de uns 70 e tantos, me disse uma daquelas frases clichês “não fique assim, tudo passa”. Nem tudo passou, mas, por hora, isso me trouxe uma paz, um alívio, sabe? Como se a barra não pesasse tanto.
Porque, às vezes, a gente só precisa descongelar inutilmente uma cerveja, ou comprar, futilmente, um esmalte de não sei quantos reais, ou ouvir qualquer frase clichê, pra se sentir bem...
Vanessa Daiany.
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Poetizando.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Mohenjo-Daro: uma sociedade igualitária na Idade do Bronze
Eu precisava vir aqui, limpar as teias de aranha...
Ultimamente uma coisa tem me fascinado – e intrigado. Trata-se de um achado arqueológico : talvez a maior cidade, e mais perfeita, construída há 4500 anos, às margens do rio Indo, no Paquistão. Uma cidade maior e mais confortável que as capitais dos egípcios e sumérios, dotada de um sistema de abastecimento com vasos sanitários de assento e canalização de esgoto em todas as casas; talvez tenha abrigado uma população de cerca de 100 mil pessoas.
“Tudo indica que sua arquitetura nada tinha de pomposo. Uma cidade para cidadãos comuns, com inúmeras casas geometricamente enfileiradas, centro de uma terceira cultura altamente desenvolvida dos primórdios da idade do bronze”. (Revista Geo).
As escavações não mostraram, até agora, indícios da existência de palácios, nem templos, ou estátuas. Ao contrário do Egito e Mesopotâmia, não há vestígios de nenhuma construção monumental, muito pelo contrário, o que se vê são casas com, aproximadamente, a mesma estrutura, que diferiam apenas no tamanho (50 ou 100 m²), feitas de tijolos com proporção estratégica (comprimento igual a duas vezes a largura e quatro vezes a altura), o que possibilitava ao construtor segurar o tijolo com apenas uma das mãos, enquanto a outra ficava livre para que se pudesse usar “argamassa”.
O fato é que há indícios de toda uma sociedade, na Idade do Bronze, de 100 mil pessoas, sem convicções religiosas exacerbadas, quem sabe uma sociedade atéia. E, coincidentemente, essa mesma sociedade também não apresenta indícios de uma hierarquia, seja governamental, seja religiosa: uma sociedade igualitária.
Enquanto, no Egito, centenas de milhares de escravos tiveram de cortar e transportar pedras monumentais, com o intuito de construir um túmulo para o seu “rei-deus”; em Mohenjo Daro, planejadores urbanos geniais desenvolviam toda uma nova cultura habitacional!
Dá pra imaginar o que seria da sociedade contemporânea sem deus(ses)?
Vanessa Daiany.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Valter di Lascio - o poeta das ruas.
Eu tinha acabado de pedir um X-tudo e uma coca-cola, quando o di Lascio apareceu, colocando um livrinho miúdo (na verdade, uma porção de páginas xerocadas e mal grampeadas) do meu lado. Sem dizer nada, barba grande, maltrapilho, ele se sentou num banquinho ao lado e esperou.
Abri a Xerox aleatoriamente e vi em letras garrafais:
CANIBALÍSTICAMENTE CORRETO
Hoje estou com a fome dos canibais,
Devorar os bispos e os cardeais.
Larguei o sanduíche na hora. E então abri outra página, não conversamos nada nesse meio tempo, a não ser por olho: os meus surpresos e os dele como de quem já compreendia esse tipo de reação, e então veio:
Sonha Dor
Mania de sonhador
Que sonha andando
Sonhei com canções nunca ouvidas
Sonhei com suas pernas me entrelaçando
Teu sexo me roçando
Teus dentes me rasgando
Sonhei que era sonhador
Que não sente dor
E ao olhar-me no interior vi então
Que estava sangrando.
Por trás da barba enorme e esbranquiçada, ele me contou que ingressou no curso de história da Unesp. Mudamos de Assunto. Que importava se o curso da Unesp tava andando por aí, com uma bolsa azul pendurada de lado? Eu quis saber do Valter di Lascio poeta. E esse cara que era energia, movimento, por trás de uma barba mal feita e amarelada pelo cigarro. Que tinha cansado do sistema, da falta de incentivo, da nossa ignorância, dessa visão enfadada que ignora a necessidade de cultura. E dessa própria necessidade que passa desapercebida.
Depois me recitou um poema boêmio, que eu retribuí com um sorriso largo. E a gente teve de ir. Cada um prum lado...
Fiquei com a Xerox, de impagáveis R$ 2,50, um beijo no rosto, e um vazio enorme de tudo o que eu não perguntei e da cerveja que a gente não tomou.
Vanessa Daiany.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Arapiraca, saudades.
Eu cresci em Ará. Interior de Alagoas. Aqui em Maceió eu moro a uns dois anos, por conta da faculdade. Mas é pra lá que eu corro, sempre que dá.
Foi em Ará que eu vivi a minha fase de construção de valores e concepções, sabe? Estive pensando sobre isso ultimamente. Sobre quem eu seria se não tivesse sido influenciada por certas pessoas. Eu conheci Marx, por exemplo, através de uma professora de história, integrante do MST, quando eu tinha só uns onze anos. Não sou muito boa com nomes, mas acho que o dela é Ana Maria, não me recordo ao certo. Foi nessa mesma época que, através de uma professora de geografia, que lecionava também no mesmo colégio, eu conheci Josué de Castro e a geografia da fome. Cheguei a participar de um concurso nacional de redação, na minha categoria, de ensino fundamental, sobre sua vida e obra.
Outro dia eu encontrei, num supermercado, outra figura, professora da minha quarta série, e, engraçado, ela me reconheceu de longe, conversamos. Uma das primeiras coisas que ela me relembrou foi o quanto, desde pequenininha, eu adorava a matemática e as ciências. Fiquei pensando se foi daí que surgiu minha aptidão por ciências exatas.
Depois vieram minhas influências de rua mesmo. As pessoas que eu conheci por acaso. Outras por atraso. E daí pra filosofia de Nietzsche, pra boemia bukowskiniana, para o libertarianismo político/eeconômico, dentre outras coisas, foi só um pulo...
Hoje eu fico vendo toda essa movimentação cultural aqui pelo Arapiraca.al.gov, como o Sarau de retalhos, que acontecerá dia 24; e outras tantas coisas que eu não pude acompanhar, como o festival de repente, o cine inverno – e agora cine primavera - , etc... Bate aquela saudade, sabe?
Do frio, da noite, da poesia. Arapiraca é inspiradora, incontestavelmente.
Vanessa Daiany.
sábado, 10 de setembro de 2011
Todo sobre mi madre
Eu não entendo muito de cinema. Aliás, eu não entendo praticamente nada do que eu falo aqui. Eu sei das coisas que eu gosto e das que eu não gosto e isso não tem nenhuma implicação técnica. Se fosse pra ter uma implicação técnica, eu estaria escrevendo sobre resina de troca iônica e catálise heterogênea, o que não é o caso.
Bom, eu gosto de filme. E eu gosto de drama. E hoje pela manhã, lembrei de um filme do Almodóvar, que eu assisti há uns bons tempos. Todo sobre mi madre. No filme, a Penélope Cruz interpreta uma freira (Penélope Cruz em filme de Almodóvar é meio Johnny Dep em filme de Tim Burton) que engravida de um travesti e é contaminada pelo vírus HIV. E o resto só assistindo, óbvio.
É uma boa pedida pra quem quer passar o sábado no sofá, comendo pizza.
Daiany, vanessa.