quinta-feira, 8 de março de 2012

Sexo Forte

Minha casa nunca foi, propriamente, um lar patriarcal. Muito pelo contrário, tenho lembranças de minha mãe dirigindo um meio caminhão, quando eu era criança. As contas, bem como as atividades domésticas, são divididas igualmente e, talvez por isso, eu nunca tenha entendido direito qualquer relação de superioridade masculina.
Acho que, cada vez mais, nós estamos conquistando os espaços que sempre nos foram de direito (Graça Foster que o diga)...
Hoje eu espero que essa busca por direitos iguais não seja uma coisa unilateral. Deveres iguais também, gente.
Vamo lá, pagar a conta, aprender a diferença entre um resistor e um capacitor, subir na escada pra consertar o chuveiro e aprender a não exigir flores no dia da mulher, porque nem sequer existe um dia do homem.
A sociedade vai deixar de ser machista quando nós nos colocarmos numa posição de igualdade, sem precisar de “dia da mulher” para salientar nossa importância. E só quem já usou o depilador da Phillips sabe qual é o verdadeiro sexo forte...

Vanessa Daiany

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Poeminha de fim de tarde

Deve passar,
Qualquer dia desses,
Como tudo que passa, quando não se espera que passe.

Devagarzinho, tateando os espaços entre um ou outro pensamento,
Quando se vê é só uma lembrança
Gostosa e limpa, daquelas que não doem.


Vanessa Daiany

sábado, 24 de dezembro de 2011

Duas palavras cordiais.

Acabei de ler a coluna Caos Ordenado, do Martín Langou. O texto da vez foi “ mais gentileza” e vale muito a pena conferir : http://www.punknet.com.br/nova/caos-ordenado-4-mais-gentileza-2012/
Tá tocando The Beach Boys e é noite de natal, eu sou atéia, detesto cavalheirismo e tenho calos nos dedos – das mãos e dos pés.
Eu não vivi, propriamente, em outras épocas, embora desejasse profundamente ter vivido. O que eu tenho de outras épocas são só impressões de quem as viveu, além de projeções que eu construí, através dos retalhos das impressões que as músicas e os filmes me transmitiram. Mas eu acho que é o suficiente pra eu concordar com Martín num ponto: “os tempos atuais escancaram uma verdadeira falta de cordialidade”.
Peguei um ônibus lotado, dia desses, num horário de pico, com direito a gritos e buzinas vindos de todas as direções, entrei e dei “boa noite” ao motorista. O tal do homem me olhou com uma cara de espera, como se me exigisse que eu exigisse algo dele, em troca do meu “boa noite”.
Então, hoje, noite de natal, eu vejo todo mundo tão amando o próximo como a si mesmo, sob a austeridade de um mandamento ...
Independente de convicções religiosas fatigadas, sejamos nós ateus, católicos, protestantes, budistas, não importa, o que eu tenho pra dizer é que falta, não só hoje, porque é natal, mas falta, cotidianamente, esse espírito de cordialidade para com o nosso próximo. Falta dar “Boa noite” pro cara do ônibus que, tanto quanto ou até mais que você, anda exaurido do caos da vida moderna.
Vambora parar de estatizar nossas relações, que a gente é, ou deveria ser, gente de carne e osso...

Vanessa Daiany.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

(des)construção social

Tem muita coisa acontecendo lá fora, eu sei.
Eu to aqui, escutando Fake Plastic Trees, com oitocentas apostilas espalhadas sobre a mesa. Observando as outras tantas pessoas nas outras mesas, com suas apostilas espalhadas.
Fico pensando que em cada uma dessas apostilas, de cada uma dessas pessoas, há uma construção individual. O emaranhado de mesas, cada qual com sua construção individual, resultaria numa construção coletiva.
Mas cada uma dessas pessoas, motivadas seja lá por quais forem seus motivos individuais, são fruto de uma construção coletiva social anterior a essa que nós somos. E nós, com nossas apostilas e nossos perfis nos sites de relacionamentos influenciaremos numa construção coletiva posterior a nós mesmos.
Eu não sei aonde quero chegar com essa conversa, mas, nesse momento, eu não consigo enxergar de que forma as minhas reações de Grignard, ou o Skinner da moça aqui do lado, ou a bioquímica celular do cara ali da frente, separadamente, podem mudar toda uma concepção de valores futuros.
A nossa sociedade nos dividiu em pequenos departamentos, nós, em cada uma dessas mesas, somos pequenos grupos funcionais de uma coisa maior, o problema é que esses pequenos grupos funcionais se afastaram uns dos outros de uma maneira tão efetiva, tão eficaz, que pensar numa mudança coletiva advinda de pequenas mudanças individuais é tão....tão pouco palpável, nesses dias em que eu deixei de ver o noticiário pra abrir um livro de química orgânica....

Vanessa Daiany.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Percepções.

A pedidos de Juliana Paulino. (Minha adorada Juba)

A conversa começou numa aula de física experimental, quando tentávamos provar, empiricamente, a Lei de Lorentz. Não sei bem como surgiu, mas o assunto foi parar numa marca importada de um esmalte que custava não sei quantos reais. Eu, do alto de todos os meus conceitos previamente estabelecidos, claro, julguei como pura futilidade. E a Juba disse uma coisa que me deixou pensativa: que não era a coisa pela coisa, sabe? Não era pelo preço que a coisa custava ou pela utilidade que lhe era conferida, era a coisa pela sensação que ela provocava. Que, mesmo parecendo fúteis, a sensação provocada por determinadas coisas, em determinadas situações, era totalmente impagável.

Fui pra casa meio absorta. E só bem depois pude perceber o que Juba queria dizer.

Quando, em pleno sábado de sol, a única Skol sobrevivente no freezer estava completamente pedrada, eu e painho passamos uns bons minutos tentando descongelá-la, como quem tenta salvar um ente querido prestes a morrer de hipotermia... No fim das contas a tal da cerveja não prestou pra nada. Mas era justamente dessa sensação que a Ju falava. Da percepção que isso tinha causado.

Depois eu parei pra lembrar uma série de outras coisas, como minha edição de 1967 do “Cem anos de solidão” que eu não troco por dinheiro nenhum. Ou meu posterzinho, de uns 10 cm, de “ A viagem fantástica”, 1966, que eu guardo com tanto carinho. O que essas coisas têm de tão diferentes de um esmalte importado? Elas estão lá, guardadas na minha estante, como pequenos troféus intocáveis e significam muito pra mim. Mas para minha mãe são só um monte de papéis costurados numa capa azul. Porque é tudo uma questão de percepção.

Hoje, há pouco, entrei num ônibus ofegante de tanto chorar. Uma velhinha, de uns 70 e tantos, me disse uma daquelas frases clichês “não fique assim, tudo passa”. Nem tudo passou, mas, por hora, isso me trouxe uma paz, um alívio, sabe? Como se a barra não pesasse tanto.

Porque, às vezes, a gente só precisa descongelar inutilmente uma cerveja, ou comprar, futilmente, um esmalte de não sei quantos reais, ou ouvir qualquer frase clichê, pra se sentir bem...

Vanessa Daiany.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Poetizando.

Eu gosto de parar para observar, sabe? Sentar no ponto de ônibus e sentir o barulho das buzinas, das pessoas gritando, do sinal abrindo e fechando, desse lá-e-cá da faixa de pedestres.
Dos acenos, eu gosto de observar os acenos seguidos de pés apressados e mãos tateando um espaço, naquele amontoado de corpos, também procurando um espaço, quem sabe não somente um espaço físico...
E dos cabelos brancos, reunidos na pracinha, com um dominó sobre a mesa de cimento. Eu gosto da sabedoria dos cabelos brancos, e até da impavidez de quem já viveu muito. Muitos, talvez, nem tenham vivido tanto assim, apenas existido muito. Particularmente, gosto dos que viveram muito. Dos que têm estórias de guerras, sejam elas interiores ou não.
Apesar de não odiar os comunistas, gosto de quem diz que odeia comunistas, como meu avô, que viveu sob a máxima: “comunista come criancinha”. Na verdade, mal sabe ele, esses aí são os padres. 
Não acredito em deus, mas eu gosto de observar as pessoas ajoelhadas na igreja, cada uma com seu dilema interior, tentando entregar suas dores, e o que consideram seus pecados, a um ser superior inanimado. Eu gosto de quem tem fé. Não essa fé cega, que considera qualquer outro tipo de crença, uma crença inferior. Mas a fé inocente e doce da minha irmã, que acredita que se rezar para santa Clara, ela faz a chuva parar de cair. 
Eu gosto de parar um pouco, pra ver a vida passar. Depois eu corro ofegante, pra tentar acompanha-la, enquanto meu pulmão diz: - por favor, nunca fume.

Vanessa Daiany

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Mohenjo-Daro: uma sociedade igualitária na Idade do Bronze

Eu precisava vir aqui, limpar as teias de aranha...

Ultimamente uma coisa tem me fascinado – e intrigado. Trata-se de um achado arqueológico : talvez a maior cidade, e mais perfeita, construída há 4500 anos, às margens do rio Indo, no Paquistão. Uma cidade maior e mais confortável que as capitais dos egípcios e sumérios, dotada de um sistema de abastecimento com vasos sanitários de assento e canalização de esgoto em todas as casas; talvez tenha abrigado uma população de cerca de 100 mil pessoas.

“Tudo indica que sua arquitetura nada tinha de pomposo. Uma cidade para cidadãos comuns, com inúmeras casas geometricamente enfileiradas, centro de uma terceira cultura altamente desenvolvida dos primórdios da idade do bronze”. (Revista Geo).

As escavações não mostraram, até agora, indícios da existência de palácios, nem templos, ou estátuas. Ao contrário do Egito e Mesopotâmia, não há vestígios de nenhuma construção monumental, muito pelo contrário, o que se vê são casas com, aproximadamente, a mesma estrutura, que diferiam apenas no tamanho (50 ou 100 m²), feitas de tijolos com proporção estratégica (comprimento igual a duas vezes a largura e quatro vezes a altura), o que possibilitava ao construtor segurar o tijolo com apenas uma das mãos, enquanto a outra ficava livre para que se pudesse usar “argamassa”.

O fato é que há indícios de toda uma sociedade, na Idade do Bronze, de 100 mil pessoas, sem convicções religiosas exacerbadas, quem sabe uma sociedade atéia. E, coincidentemente, essa mesma sociedade também não apresenta indícios de uma hierarquia, seja governamental, seja religiosa: uma sociedade igualitária.

Enquanto, no Egito, centenas de milhares de escravos tiveram de cortar e transportar pedras monumentais, com o intuito de construir um túmulo para o seu “rei-deus”; em Mohenjo Daro, planejadores urbanos geniais desenvolviam toda uma nova cultura habitacional!

Dá pra imaginar o que seria da sociedade contemporânea sem deus(ses)?

 

Vanessa Daiany.